"O medo das pessoas desapareceu". A revolta contra o regime no sudoeste do Irão

Por quatro noites consecutivas, as ruas de Ahvaz, Abadan, Dezful e outras cidades do sudoeste do Irão, uma região de maioria árabe, foram tomadas por manifestantes a exigir abertamente a queda do governo islamita, enquanto as forças de segurança respondiam com violência crescente.

RTP /
A bandeira iraniana anterior à tomada do poder pelos clérigos xiitas em 1979, tem dominado os protestos de 2025/2026 Quentin de Groeve, Hans Lucas - via AFP

A internet estava em baixo há três dias. Ninguém conseguia enviar vídeos. Ninguém conseguia pedir ajuda. E, mesmo assim, por toda a província do Khuzistão, milhares continuavam a sair à rua.

"Ninguém se atreveu a filmar, mas éramos uma enxurrada", disse Sina, um residente de 20 anos do bairro de Zeytoon Karmandi, em Ahvaz, em declarações ao site IranWire.

"Foi apocalíptico", acrescentou. "Tinham mobilizado tantas forças de segurança que, se tivéssemos parado para pensar no que estava a acontecer, o medo teria dominado".

Os tiroteios começaram ao anoitecer em Golestan, o centro comercial de Ahvaz, capital da província do Khuzistão, rica em petróleo.

Durante horas, os moradores relataram o som de armas automáticas perto da sede do Departamento de Informações de Ahvaz, para onde, segundo os meios de comunicação governamentais, os manifestantes detidos são inicialmente levados.

"Mas pessoas da minha idade de todos os bairros vizinhos tinham vindo. Os polícias lançavam gás lacrimogéneo e disparavam, mas a multidão aumentava e aumentava", afirmou Sina.Uma das mudanças mais significativas dos protestos numa região geralmente politicamente tranquila está a ser a participação de comerciantes, tradicionalmente conservadores, oriundos de bairros de classe média e de residentes em cidades profundamente religiosas.
Agora, com as comunicações cortadas e o número total de vítimas desconhecido, as testemunhas descrevem uma população que ultrapassou um limite psicológico.

"Desta vez, o medo das pessoas desapareceu", disse Qasem, um residente de Ahvaz, de 28 anos, que descreveu os protestos como sem precedentes em termos de escala e intensidade.

Comerciantes tradicionais de bazares marcham ao lado de estudantes universitários. Os bairros de classe média, conhecidos pelo seu silêncio político, explodiram em protestos.

"Estamos a lutar pelos direitos das mulheres, pelos direitos humanos, pelas liberdades individuais e pela liberdade do povo iraniano", dizia a última mensagem que o IranWire recebeu dos manifestantes em Dezful, antes de as comunicações serem cortadas.
Nas mãos dos jovens

O vazio de informação aprofundou a ansiedade entre os iranianos, que se recordam da repressão violenta que se seguiu a bloqueios semelhantes da internet durante protestos em todo o país, em novembro de 2019.

Os protestos chegaram ao Khuzistão a 8 de janeiro, quando os comerciantes de várias cidades aderiram a uma greve nacional que já tinha encerrado bazares em Teerão e noutras grandes cidades.

Ao anoitecer em Ahvaz, o coração comercial da região petrolífera do sudoeste do Irão, as manifestações tinham crescido muito para além das queixas dos comerciantes.


Qasem observava do seu apartamento enquanto multidões convergiam para o centro da cidade. A maioria dos residentes do centro de Ahvaz pertence à classe mercantil tradicional - conservadora, mais velha e geralmente favorável ao governo.

Mas os manifestantes eram, na sua grande maioria, jovens.

"Desta vez, os protestos estão nas mãos dos jovens", disse Qasem ao IranWire. "Os pontos de encontro dos jovens são os bairros de Zeytoon e Kianpars. Deslocámo-nos do centro da cidade para lá, para que a multidão crescesse".

No bairro de classe média de Kianpars, Novian, um estudante de engenharia civil de 20 anos, testemunhou confrontos que começaram ao final da tarde e se intensificaram após o anoitecer.

"Os confrontos foram muito graves, mas no início não houve tiros para matar", disse Novian. "Estavam a lançar gás lacrimogéneo para assustar e dispersar as pessoas. Também houve muitas lutas. As pessoas não tinham realmente medo. Perseguiam os polícias e fugiam."

"Quando cortaram a internet, tudo mudou", disse. "Os tiroteios aumentaram e os disparos vinham de todas as direções. Não era possível distinguir quem estava a disparar sobre quem. Parecia um filme apocalíptico"."Este bairro sempre albergou pessoas das classes média e alta", acrescentou Novian. "Pelo menos, não me lembro de os residentes daqui se terem envolvido em protestos de rua antes, nem mesmo em 2022", acrescentou, numa referência às manifestações em todo o país após a morte de Mahsa Amini sob custódia policial.

A revolta iniciada dia 28 de dezembro, por comerciantes que encerraram as lojas em Teerão, num protesto contra a inflação e a queda do rial, a moeda iraniana, foi o rastilho para a indignação com um regime que abandona os seus cidadãos.

Em Abadan, os protestos começaram dia 6 de janeiro. Numa região que participou ativamente a favor dos clérigos na revolta de 1979, milhares cantaram nas ruas "esta é a batalha final, Pahlavi irá regressar", referindo-se ao príncipe herdeiro do Irão.

Uma mulher árabe vestida com trajes tradicionais confrontou a polícia de choque que bloqueava o acesso a uma multidão de manifestantes. "As pessoas têm direitos. Então, o que aconteceu à liberdade de que tanto falavam?", questiona.
"Dois mil mortos"
Nader, um jovem de 19 anos que trabalha numa cafetaria, disse que as manifestações na Rua Amiri incluíam cânticos de apoio a Reza Pahlavi, filho do último Xá, e condenações aos líderes da República Islâmica.

"Eu era um dos que, até ontem, dizia: 'Deixem estes ir embora - quem vier depois'", disse Nader, descrevendo a sua evolução política. "Agora, com a situação como está, digo que quem vier depois é melhor do que isso. O que poderia ser pior?"

Referiu o recente desaparecimento de quatro jovens mulheres em Abadan, duas das quais terão sido raptadas em plena luz do dia. "A polícia não teve coragem de as encontrar", disse.

Segundo Nader, as forças de segurança acabaram por recuar.

"Tirem-lhes as armas, não têm nada", disse. "As nossas mãos estão vazias, mas temos inteligência, coragem e motivação para retomar o controlo e reconstruir. Desta vez, somos os vencedores".

Até em bastiões do Governo, como Dezful, uma cidade profundamente religiosa, o cântico "morte ao ditador" foi entoado nas ruas por milhares de gargantas no dia oito de janeiro, uma sexta-feira e dia dos muçulmanos se deslocarem às mesquitas.

Os protestos entraram na 15ª noite consecutiva, de acordo com tweets, que, aparentemente, conseguiram furar o bloqueio. Mas as imagens são publicadas sem informação do local, ao contrário dos dias anteriores.
Confirmar o número de vítimas no meio do bloqueio das comunicações é extremamente difícil, mas os relatos de fontes locais e de grupos de defesa dos direitos humanos pintam um quadro negro.

Domingo, na rede X, a Fundação Narges Mohammadi referia que "pelo menos mais de dois mil manifestantes foram mortos".
O IranWire apurou que, inicialmente, no dia 8 de janeiro, as forças de segurança usaram gás lacrimogéneo, bastões e balas de borracha, mas passaram a usar munições reais nos dias 9 e 10 de janeiro, à medida que os protestos continuavam.

O bloqueio da Internet reacendeu os receios de uma repetição de novembro de 2019, quando as autoridades cortaram a conetividade durante protestos em todo o país contra o aumento do preço dos combustíveis.

Quando o acesso foi restabelecido, surgiram relatos de que as forças de segurança mataram centenas de manifestantes - números de vítimas que o governo nunca reconheceu oficialmente.

Desta vez, a eficácia do medo parece ter desaparecido.
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